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07/02/2013

Zona Portuária: do nascimento à criação do Circuito da Herança Africana

“Cais do Valongo redimensiona a história da escravidão”, diz arqueóloga Tania Andrade Lima

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Diversos objetos de grande valor histórico foram encontrados com as obras no porto (Foto: Divulgação/Porto Maravilha)

Uma das áreas mais degradadas do Rio de Janeiro fica, contraditoriamente, em uma das áreas historicamente mais importantes da cidade: a zona portuária. A oportunidade única que a cidade recebeu para sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016 está transformando a região. Mais do que isso. Durante as escavações para as obras de revitalização, foram encontrados diversos objetos de grande valor histórico e arqueológico, que culminaram com a criação do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana (saiba mais sobre o Rio e sua história).

Monitoradas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), sob a coordenação da arqueóloga do Museu Nacional/UFRJ, Tania Andrade Lima, as escavações revelaram a existência de centenas de objetos pertencentes às classes dominante e escrava, a maioria de objetos da cultura africana. Mas o mais importante: foi encontrado o Cais do Valongo, o porto mais importante do Império Colonial Português.

“Nós já sabíamos da existência do Cais do Valongo. A grande surpresa foi encontrá-lo em tão bom estado de conservação. Milhares de negros de diversas etnias africanas passaram por ele. O que tínhamos antes sobre a cultura negra escrava eram peças que já traziam grande influência da cultura branca. A redescoberta do Cais trouxe artefatos genuinamente negros, que redimensionam a história da diáspora africana e da escravidão, pela sua materialidade”, afirmou Tania.

Segundo a arqueóloga, não existe nenhum outro local de desembarque dos africanos escravizados com as características do Valongo nas Américas: “Trata-se de um achado que transcende a história do Brasil, pois remete a um período doloroso na trajetória da humanidade que não pode se repetir nunca mais. O Valongo é um local de reflexão sobre o racismo e suas consequências, mas também de celebração da extraordinária diversidade étnica e cultural que os africanos trouxeram para o nosso país e que se tornou parte importante da nossa identidade como povo”.

Jardim do Valongo é parte do Circuito da Herança Africana (Foto: Divulgação/Porto Maravilha)

Objetos de rituais religiosos, imagens de exu, adornos como anéis de piaçava, colares e crucifixos, cachimbos, chifres, centenas de búzios cortados, cocos, cristais, ossos, potes, porcelanas... Tania Lima chama o cais de “patrimônio dos afrodescendentes”, um sítio arqueológico de extrema importância histórica, urbanística, econômica e cultural para a cidade do Rio de Janeiro e a história da sua sociedade.

A etapa de campo do grupo de arqueólogos aconteceu entre janeiro de 2011 e setembro de 2012, mas o trabalho segue na etapa de laboratório. Quando achadas, as peças passaram por um processo de limpeza, catalogação e análise. Depois de todo o processo de registro, as peças serão encaminhadas a um local ainda indefinido. Na proximidade do largo de São Francisco da Prainha foram encontrados ainda cinco canhões do século XVII. “Já são os mais antigos do Rio de Janeiro. Da época das invasões francesas, por volta de 1710”, explicou.

As descobertas foram tão importantes, que o Cais é forte candidato ao título de Patrimônio Histórico da Humanidade. Postos de saída dos navios negreiros na Ilha de Goreia, em frente a Dakar, capital do Senegal, e Mindelo, em Cabo Verde, são reconhecidos como Patrimônios da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Sob a coordenação da Subsecretaria de Patrimônio, a prefeitura criou um roteiro que destaca o conjunto de locais marcantes para a memória da cultura afro-brasileira que inclui o Cais do Valongo, o Jardim Suspenso do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito, o Instituto Pretos Novos e o Centro Cultural José Bonifácio.

Mapa do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana (Arte: Porto Maravilha)

História do Porto do Rio

Os serviços de expedição de mercadorias para o exterior e para outros estados brasileiros por via marítima eram efetuados por meio de saveiros, que atracavam em pontes de madeira denominados piers ou cais. De 1779 a 1831, desembarcaram no Brasil cerca de 500 mil africanos escravizados no Cais do Valongo, região que compreendia os bairros da Saúde e Gamboa. Em 1871, com a construção da Doca da Alfândega, surgiram os primeiros projetos para o desenvolvimento do porto do Rio, que então funcionava por meio de instalações dispersas.

Em 1903, o porto do Rio de Janeiro iniciou a primeira etapa de modernização e foi oficialmente inaugurado no dia 20 de julho de 1910. O Jornal do Brasil publicou: “Das várias obras mandadas executar, a que hoje se inaugura é uma das mais importantes e representa o desejo de uma população, só muitos anos depois transformado em realidade... Quem percorre o trecho do cais pronto, no Mangue, sente-se admirado, orgulhoso mesmo da extraordinária transformação, que ora apresenta o Porto do Rio de Janeiro”. Hoje, o porto é um dos mais movimentados do país quanto ao valor das mercadorias e à tonelagem. Os principais produtos escoados são minério de ferro, manganês, carvão, trigo, gás e petróleo.

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