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Marcos Lima

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Marcos Lima palestra em evento de comemoração do marco de três anos para os Jogos Paralímpicos Rio 2016 (Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

Deficiente visual desde os cinco anos de idade, Marcos Lima nunca deixou que a sua condição fosse encarada como uma limitação. O analista de Integração Paralímpica do Rio 2016 é jornalista de formação, fundador de uma Organização Não Governamental para promover o esporte para cegos e já foi, inclusive, campeão brasileiro do futebol de cinco.

Em entrevista para o site rio2016.com, Marcos conta como a sua história de superação o trouxe mais para perto de um dos seus maiores sonhos: os Jogos Paralímpicos. Confira!

Rio 2016: Como foi lidar com a deficiência visual ainda na infância?

Marcos Lima: Apesar de não ter histórico na minha família, eu nasci com glaucoma congênito e com cinco anos de idade perdi completamente a visão. Quando criança, é bem difícil para os pais perceber que existe uma deficiência, então a minha família demorou alguns meses para perceber que eu tinha um problema visual. Fiz 16 cirurgias, mas mesmo assim fui perdendo a pouca visão que tinha. Por isso, entrei para o Instituto Benjamin Constant aos dois anos de idade, onde estudei até o primeiro grau e lá aprendi a lidar com a deficiência visual. Inclusive, foi no instituto que conheci o esporte paralímpico.

Rio 2016: Como foi a sua história com o esporte?

ML: Conheci o futebol de cinco em 1993, quando as primeiras aulas da modalidade começaram a ser oferecidas no Benjamin Constant. Eu tinha apenas 10 anos de idade, era um tanto “franzino”, então demorei algum tempo até começar a participar de campeonatos, o que fiz de 1996 até 2010. Foram quase 14 anos de competição, que me rendeu títulos como campeão da Copa Brasil e três vezes campeão regional. Lembro que, no início, a gente jogava com uma bola enrolada em um saco plástico. Nem imaginava que existia bola de guizo, por exemplo.

Rio 2016: E por que não seguir a carreira de atleta?

ML: Sempre amei jogar futebol, para mim é quase uma terapia. Cheguei a jogar na seleção brasileira e fui até pré-convocado para as Paralimpíadas de Atenas, a primeira a incluir o futebol de cinco. Mas na época eu passei para um vestibular bem complicado, para estudar jornalismo na UFRJ, e acabei por optar pela faculdade por ser o caminho mais seguro para trilhar. O futebol poderia me dar algo, mas era ainda muito distante e nada era garantido. Continuei jogando, mas não com uma ambição de alto rendimento. O nível do futebol no Brasil é muito alto, e a minha carreira nunca foi desenhada para ser um atleta de elite, realmente.

Rio 2016: Para você, quais os principais desafios que um atleta paralímpico encara?

ML: Acho que o esporte paralímpico hoje está crescendo e ganhando mais espaço. Mas na época que estava no auge da minha forma eu não tinha essa estrutura. Você jamais poderia imaginar que um atleta poderia viver do esporte, especialmente se fosse de uma modalidade paralímpica. Se já era bem difícil para atletas olímpicos, para os paralímpicos era ainda mais complicado. Você não imaginava que era possível ter uma bolsa atleta, por exemplo, ou encontrar pessoas interessadas em patrocínio.

Rio 2016: Você é vice-presidente de uma fundação para promover o esporte paralímpico. Qual foi a motivação em criar essa ONG?

ML: Enquanto estava na faculdade, em 2005, eu e meus amigos fundamos a Urece Esporte e Cultura para Cegos e o nosso maior objetivo sempre foi profissionalizar o esporte paralímpico. Quando a criamos, o esporte paralímpico era ainda um movimento amador, visto pelas pessoas como algo que provocava um sentimento de pena e não como um esporte de alto rendimento. Então, nós queríamos dar condições aos atletas para treinar e fazer com que eles pudessem contar com uma estrutura para isso. Tive uma grande experiência profissional por cinco anos, onde trabalhava diariamente como vice-presidente e atuava bastante na área da minha formação, a assessoria de imprensa da ONG, sempre como voluntário. Essa experiência me preparou, inclusive, para o trabalho que eu desenvolvo aqui no comitê.

Rio 2016: Esse trabalho também rendeu algumas experiências inesquecíveis. Como foi esquiar na neve?

ML: Esse foi um dos projetos que eu fiz pela ONG, em 2008. Fui esquiar na Republica Checa junto com meu amigo e colega de fundação Gabriel Mayr. Lá fizemos uma oficina e partimos para o esqui. Foi uma experiência muito bacana e muito diferente para mim. Eu não conhecia neve, era um mundo totalmente desconhecido. A única vantagem é que não conseguia ver a altura, então foi bem tranquilo vencer o medo.

Rio 2016: Como a sua trajetória te trouxe até o Comitê Rio 2016?

ML: Em março de 2013, fui chamado para dar uma palestra no lançamento do programa “Amigos Paralímpicos”, do Comitê e, ao final do evento, recebi o convite para me juntar ao time. A Mariana Mello, que hoje é minha gerente, me achou a partir do meu blog, “Histórias de Cego”. Ela, inclusive, foi uma das principais incentivadoras que me fizeram voltar a escrever as minhas histórias.

Rio 2016: Qual o desafio agora até 2016?

ML: A minha área é a Integração Paralímpica, e o nosso desafio é de conscientizar e engajar todas as áreas do Comitê sobre a importância dos Jogos Paralímpicos e os requerimentos para realização desse evento. Como serão dois eventos muito grandes, a tendência é que as pessoas fiquem muito focadas apenas nos Jogos Olímpicos, mas temos que considerar que serão mais de 4300 atletas que virão para competir nos Jogos Paralímpicos. É um dos maiores e mais importantes eventos do mundo. E, como os próprios atletas são pessoas com necessidades diversas, você tem que atentar para um alto nível de especificidade em questões como acessibilidade, por exemplo.

 

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