Entrevistas

Lucia Montanarella

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Lucia Montanarella durante o World Press Briefing 2013 (Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

A jornalista italiana Lucia Montanarella está à frente de todas as questões de infraestrutura e serviços para possibilitar a melhor cobertura midiática dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Anos atrás, quando começava a sua carreira no jornalismo esportivo na Itália, era a própria Lucia quem dependia destes mesmos serviços para escrever suas histórias para o jornal italiano "II Tempo". Apostando na experiência adquirida em nove edições dos Jogos, a gerente-geral de Operações de Imprensa do Comitê conta como é viver os dois lados da cobertura do maior evento esportivo do planeta. Confira a entrevista exclusiva:

Rio 2016: Conta um pouco sobre a sua trajetória profissional e como chegou até os Jogos Rio 2016.

Lucia Montanarella: Eu costumava trabalhar como jornalista esportiva. Cobri três edições dos Jogos: Albertville 1992, Barcelona 1992 e Atlanta 1996. Quando saí do meu jornal em 1999, comecei a trabalhar nas operações de imprensa de Sidney 2000 e, desde então, continuei trabalhando nos Jogos. Trabalhei nos Jogos Olímpicos de Sidney, Atenas, Torino e Vancouver e nos Jogos da Juventude em Cingapura e Innsbruck. Desde 2008, em Vancouver, eu tenho o mesmo cargo de agora e lidero as operações de imprensa. Por causa disso, fui convidada a dar consultoria para o projeto de candidatura do Rio 2016 e, quando terminei meu trabalho em Vancouver, fui contatada de novo.

Rio 2016: Como foi essa transição entre cobrir os Jogos e organizá-los?

LM: Eu acredito que é uma grande vantagem para que eu possa fazer o meu trabalho da melhor forma. Como fui uma jornalista cobrindo os Jogos, sei exatamente o que é preciso. Tenho a minha própria experiência para me guiar. Sei o quão importante para o nosso trabalho é a questão de transporte, acomodações, tecnologia, porque vivi isto na pele. É um conhecimento muito útil. Me ajudou a entender melhor o trabalho e a entregar o que é preciso para os meus colegas.

Rio 2016: Você sempre soube que iria trabalhar com esporte?

LM: Na verdade, eu nunca quis ser uma jornalista esportiva. Estudei literatura italiana na faculdade e sempre me vi escrevendo críticas para o teatro ou cinema. Mas é muito complicado conseguir um emprego em um jornal na Itália. A única oportunidade que tive foi para a editoria de esportes no jornal II Tempo. Não era o que eu queria, mas todo mundo me dizia o quão difícil era conseguir um emprego como este, e aquele era um dos maiores jornais de Roma. Eu era muito jovem, ainda estava na universidade, e comecei lá pensando que, em algum momento, poderia passar para a editoria de cultura. Nunca aconteceu. Comecei cobrindo as competições de esqui e tínhamos um atleta italiano muito famoso na época, chamado Alberto Tomba. Tive a oportunidade de escrever um material sobre ele e ir para os Jogos de Inverno em Albertville, França. Desde então decidi que cobrir os Jogos era o que eu queria fazer.

Rio 2016: Quando foi a primeira vez que você saiu do seu país para viver em outro lugar?

LM: Mudei para Sidney em 2000 para trabalhar nas operações de imprensa dos Jogos daquele ano, onde vivi por nove meses. Depois disso, basicamente nunca mais voltei para Roma. Morei na Espanha, Torino, Vancouver, Pequim por um curto período, depois voltei para Vancouver e agora estou no Rio.

Rio 2016: Como é viver em lugares tão diferentes?

LM: É muito legal! Acho que é parte do que faz esse trabalho tão atraente. Tem um grupo de nós que fazemos isso. Somos chamados “ciganos Olímpicos”, porque estamos sempre mudando a cada edição dos Jogos. Eu gosto de explorar ambientes novos, trabalhar com pessoas diferentes e entender a cultura de cada região.

Rio 2016: E o que está achando do Rio?

LM: Eu amo o Rio. Conheci um pouco pelo período que trabalhei para a candidatura do Rio e realmente acho que os brasileiros e os italianos são muito parecidos. Nós sabemos bem como curtir a vida. Acho que italianos talvez consigam entender melhor a cultura carioca mais do que muitas pessoas de outras nacionalidades.

Rio 2016: Você sente saudades de cobrir os Jogos?

LM: Às vezes. Não acontece com frequência. Teve um momento em Vancouver quando fui visitar uma instalação de competição e vi todos os jornalistas trabalhando. Confesso que fiquei com um pouco de inveja deles! Mas amo meu trabalho agora, de verdade. Temos ainda um projeto nas operações de imprensa chamado Olympic News Service [Serviço de Notícias Olímpicas, no inglês]. É uma agência de notícias feita por nós e isso é bem próximo do trabalho dos jornalistas. Isso me dá a ideia de que, de alguma forma, ainda estou envolvida com a cobertura das competições.

Rio 2016: Você se lembra de alguma história em especial daquela época?

LM: Minha edição favorita dos Jogos foi Barcelona 1992, porque lá consegui manchetes muito boas no meu jornal. Foi cobrindo as competições de Barcelona que consegui minha primeira capa. A Itália tinha vencido uma partida de polo aquático contra a Espanha. Como o nosso adversário era nada menos que o país-sede, e o Rei Juan Carlos estava na arquibancada, foi uma grande notícia na época. A outra história que me marcou foi quando mountain bike estreou no programa Olímpico, em Atlanta 1996, e uma atleta italiana, Paula Pezzo, venceu a primeira prova. Eu consegui uma grande matéria sobre isto e lembro que foi bastante dramático por causa da diferença de seis horas entre Atlanta e Roma. Meu prazo era muito apertado e, acredite, nós não usávamos a internet! Lembro que tive que ditar cada material por horas . Atlanta foi, na verdade, a última edição dos Jogos que tivemos que ditar.

Rio 2016: Isto parece impossível. Como era trabalhar sem internet?

LM: Quando você pensa sobre isso, é realmente incrível como nós conseguíamos trabalhar sem tecnologia. Não existia e-mail! Inacreditável. Meu filho não pode imaginar uma coisa como esta e, sinceramente, hoje em dia nem eu consigo.

Rio 2016: Você acha que seus filhos vão seguir os seus passos, uma vez que estão crescendo nos Jogos?

LM: Não sei, na verdade. Meu filho Pietro tinha apenas três anos quando fomos para Sidney e, até hoje, já esteve em seis edições dos Jogos. Ele conhece muito bem o evento. Mas o que ele gosta mesmo é de tecnologia. A minha filha é muito pequena ainda, tem apenas seis anos. Não acho que eles serão jornalistas, mas sim, eles estão crescendo junto com os Jogos.

Rio 2016: Quando você chegou ao Rio 2016?

LM: Comecei no Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 em março de 2012, trabalhando em meio período. Em janeiro deste ano, comecei integralmente na equipe de Operações de Imprensa.

Rio 2016: Qual a principal missão da sua equipe?

LM: Nosso principal objetivo é garantir que os 5600 repórteres e fotógrafos que estarão aqui em 2016 possam fazer a melhor cobertura dos nossos Jogos e contar com as melhores condições para isso. O meu sucesso é medido pelo fato da mídia estar contente e de que eles tenham a capacidade de fazer o seu trabalho da melhor maneira possível. Tudo o que nós precisamos fazer é garantir que eles tenham absolutamente tudo o que precisam.

Rio 2016: O quão diferente o trabalho de vocês será durante os Jogos?

LM: Basicamente, agora estamos planejando e garantindo que todo o Comitê também inclua a imprensa nos seus planejamentos. Durante os Jogos, vamos gerenciar pessoas, porque temos que entregar tudo isso. Vamos contratar um grande time, serão 2500 pessoas trabalhando nas operações de imprensa e também um bom número de voluntários.

Rio 2016: Vocês acabaram de entregar o primeiro World Press Briefing. Como foi o evento?

LM: Foi muito bom. Esta foi a primeira vez que tivemos a imprensa nacional e internacional no Rio para que eles fossem introduzidos ao projeto e a todos os preparativos para as suas operações em 2016. Eles vêm aqui querendo entender o plano de acomodação, transporte, infraestrutura, enfim, tudo o que precisam para trabalhar durante os Jogos. Teremos outro encontro no próximo ano e, possivelmente, um terceiro em 2015.
 

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